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Um blog sobre o livro
"Por que os homens não voam?"
entre outras crônicas
de Pablo Morenno
O livro traz as crônicas:
Parte I - Sobre cacos de vidro
- Sobre cacos de vidro
- Sles estão chegando
- Órfão dos filhos
- Sobre a culpa das janelas de vidro
- Jó e o buraco negro
- Máquinas para atender
- Quem tem medo de lobo mau?
- O menino mágico
- O roubo do cata-vento verde-amarelo
- Como comprar bem um bichinho
- Esperar é humano
- Oração da hipocrisia
- Ee frio, empréstimo e outras coisas
- Onde está Peter Pan?
- Davi e as forças da vida
- Las brujas de plástico
- Pássaros não têm dentes
- Álvaro
Parte II - Cavalos que ventam
- Cavalos que ventam
- Em defesa do amor
- Procaína
- Sobre vivos e mortos
- Sem extravagâncias
- E Deus fez a mulher
- A raposa e os sonhos verdes
- A bênção, palavra!
- Desejo meus desejos
- Por que os homens não voam?
- Se a alma não for pequena
- Coisas pequenas podem ser grandes
- Fale com ela, e com todos
- Como uma onda no mar
- A hora da claridade
- Às Mães
- A economia do amor
- Dinheiro como água
- Curioso cantar de curió
- Concertos e desconsertos
- Segredo de Natal
- Nós e a terra, ainda...
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SEM EXTRAVAGÂNCIAS
Não exponhas o amor às extravagâncias. Sê discreto e manterás o amor seguro. Esquece as declarações públicas, as faixas em aviões. Deixa o amor na alma, no coração e na mente, onde estão suas três raízes. Amor exposto é presa fácil às pragas. Não te perguntes por que na floricultura as plantas têm folhas tão brilhantes e flores tão suaves. Pensa um pouco e lembrarás das estufas onde cresceram. Nenhuma flor delicada suporta a intempérie. Por qual razão deixarás o amor sofrer ao relento? Como tudo o que é cultivado na intimidade, o amor detesta portas escancaradas.
Beijo de língua é para o aconchego de casa. Não sejas convencido demais; o amor não agüenta esnobismo. Não dês vexame amando; o amor não suporta publicidade. Não faças sexo, nem preliminares, em lugares públicos; o amor não dá mão à vulgaridade.
Não ames para os outros. Ama para a pessoa amada. Apenas a ela interessa o teu desespero e a tua insegurança. Apenas ao ser amado interessam tuas declarações. Deixa que os outros descubram o ser sutil. O amor não se revela em alto-falantes, nem em outdoors. O amor se diz em pequenos gestos, em espelhos tênues. É meia-luz o grande sol do amor. É o silêncio seu maior teatro. Deixa os outros se espantarem com o amor, mas nunca pelo fiasco. O amor é feito de alma e, como ela, existe mas não pode ser tangido. Sente o amor como uma brisa anunciando mudança de tempo. O amor tem um corpo de aura que se esmigalha ao ser exposto sem finesse.
A maior prova que o amor nos faz para ver se dele somos dignos é incitar-nos a contá-lo ao mundo. Por isso, o primeiro impulso do apaixonado é sair gritando aos quatro ventos. O que interessa ao mundo se amas? O amor interessa ao amado. Fala em seu ouvido, mostra com teus gestos, muda tua vida. Teu amor não interessa aos vizinhos, ao pessoal do shopping, aos freqüentadores de um jogo de futebol, aos telespectadores de um programa de televisão. Não mostres ao amor que não o mereces. Não consumas teu amor na indiscrição.
Quando quiseres amar, entra na tua alma e na alma que te encanta. O amor é uma das qualidades humanas que se comunica sendo. Quando amares, sê diferente sem escândalos. Deixa as loucuras de amor para o teu lar, para o teu quarto, ante os olhos e a boca. Uma intimidade exclusiva é o maior presente a ser dado a quem jogou o amor em ti. Que teu amar seja tão exclusivo que apenas o amado ou a amada o reconheçam. Dá a ele ou a ela esta surpresa. É a única maneira de conservar o amor sempre com brilho de folhas novas e com a suavidade das pétalas. O amor extravagante sofre as intempéries, desgasta-se com a poluição, fica ao risco das pragas, e ao expores ao mormaço as raízes sem o esmero da sutileza causarás, embora indesejado, o seu ressecamento. Então, para sempre, terás perdido os instrumentos com os quais buscamos nas dimensões mais profundas da intimidade a seiva de nossas alegrias. Ao amar, sê como um monge oração.
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