ENTRE OUTRAS CRÔNICAS

BLOG

Um blog sobre o livro
"Por que os homens não voam?"
entre outras crônicas
de Pablo Morenno

O livro traz as crônicas:

Parte I - Sobre cacos de vidro

- Sobre cacos de vidro
- Sles estão chegando
- Órfão dos filhos
- Sobre a culpa das janelas de vidro
- Jó e o buraco negro
- Máquinas para atender
- Quem tem medo de lobo mau?
- O menino mágico
- O roubo do cata-vento verde-amarelo
- Como comprar bem um bichinho
- Esperar é humano
- Oração da hipocrisia
- Ee frio, empréstimo e outras coisas
- Onde está Peter Pan?
- Davi e as forças da vida
- Las brujas de plástico
- Pássaros não têm dentes
- Álvaro

Parte II - Cavalos que ventam

- Cavalos que ventam
- Em defesa do amor
- Procaína
- Sobre vivos e mortos
- Sem extravagâncias
- E Deus fez a mulher
- A raposa e os sonhos verdes
- A bênção, palavra!
- Desejo meus desejos
- Por que os homens não voam?
- Se a alma não for pequena
- Coisas pequenas podem ser grandes
- Fale com ela, e com todos
- Como uma onda no mar
- A hora da claridade
- Às Mães
- A economia do amor
- Dinheiro como água
- Curioso cantar de curió
- Concertos e desconsertos
- Segredo de Natal
- Nós e a terra, ainda...

 

 

 

SOBRE A CULPA DAS JANELAS DE VIDRO

Faz alguns dias, um anjo que  revoava a terra  chocou-se contra a vidraça de minha janela. Quebrou-se uma asa e seu vôo ao infinito deteve-se ali, entre os cacos de minha vida. Um susto súbito estremeceu meu corpo. O anjo de asa quebrada tornou-se visível. Um anjo visível é algo impossível de ser contemplado sem que sejamos vítimas de um encanto. Na terra ainda não há médicos de anjos, nem gesso, nem talas, nem hospitais... Nem sequer inventaram analgésico de anjos.

Normalmente, os anjos não sentem paixão, porque são puros. Porém, um anjo sem asa, paradoxalmente, é puro e se apaixona. Isto acontece porque a paixão é falta, neste caso, falta de uma asa. A dor do anjo é paixão e ele se apaixona pelo primeiro que compartilha sua dor.  Neste caso, surpreendentemente, fui eu. Quem vê a dor de um anjo se apaixona também. Neste caso, de novo, fui eu.

Entre mim e o anjo há amor. É um amor estranho, inominável. Talvez, também, um tanto invisível.  Entre tantas criaturas no mundo esperando ser amadas,  fui apaixonar-me logo por um anjo que, distraidamente, passeava entre os homens! Agora sofro a sina de quem ama o impossível e que não pode sair gritando este amor pelas ruas ou escrevê-lo nas portas das catedrais.

Quem tem vidraças muito transparentes deve tomar cuidado. Um dia  esta vidraça pode ferir um anjo. Mas, no fundo, quem fica com uma imensa ferida de amor para sempre será você. É que um anjo, de repente, não se sabe como, pode curar-se misteriosamente. Então, o anjo desaparece de um dia para outro. A vidraça se recompõe como que por encanto - o mesmo encanto de quando tudo começou. Um risco indelével e desengonçado na vidraça é o único vestígio  que restará de minha pequena história.
             
A paixão por um anjo é uma das verdades que jamais aceitam ser ditas neste mundo. Ao menos por enquanto.