ENTRE OUTRAS CRÔNICAS

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Um blog sobre o livro
"Por que os homens não voam?"
entre outras crônicas
de Pablo Morenno

O livro traz as crônicas:

Parte I - Sobre cacos de vidro

- Sobre cacos de vidro
- Sles estão chegando
- Órfão dos filhos
- Sobre a culpa das janelas de vidro
- Jó e o buraco negro
- Máquinas para atender
- Quem tem medo de lobo mau?
- O menino mágico
- O roubo do cata-vento verde-amarelo
- Como comprar bem um bichinho
- Esperar é humano
- Oração da hipocrisia
- Ee frio, empréstimo e outras coisas
- Onde está Peter Pan?
- Davi e as forças da vida
- Las brujas de plástico
- Pássaros não têm dentes
- Álvaro

Parte II - Cavalos que ventam

- Cavalos que ventam
- Em defesa do amor
- Procaína
- Sobre vivos e mortos
- Sem extravagâncias
- E Deus fez a mulher
- A raposa e os sonhos verdes
- A bênção, palavra!
- Desejo meus desejos
- Por que os homens não voam?
- Se a alma não for pequena
- Coisas pequenas podem ser grandes
- Fale com ela, e com todos
- Como uma onda no mar
- A hora da claridade
- Às Mães
- A economia do amor
- Dinheiro como água
- Curioso cantar de curió
- Concertos e desconsertos
- Segredo de Natal
- Nós e a terra, ainda...

 

 

 

POR QUE OS HOMENS NÃO VOAM?

Decidi caminhar para o trabalho. Gasolina e gordurinhas foram motivos fortes – falta de uma, sobra de outras. Depois de muito tempo andando de carro, foi uma volta prazerosa a meus tempos de pobreza. Melhor dizendo, aos tempos em que eu era mais pobre que hoje. Antes do atrofiamento total dos pés, decidi caminhar. Essencial reviravolta. Como há gente nessa cidade! Meninas na moda, mães amamentando, sacolas ao vento, cabelos ao vento, perfumes ao vento...

Roupas! Ah, se a folhinha de parreira imaginasse seu futuro! Só caminhando descobrimos que estamos fora de moda. De carro não, por que a moda tem isto de andar, movimento, dinâmica, vento nos tecidos, cheiro e cabelos tremulando. Imagine a Gisele Bündchen ao meu lado, no carro, com cinto de segurança, sem poder jogar as nádegas pra-lá-pra-cá quando pisa com um pé exatamente na frente do outro. Imagine a cabeça da gente sem poder fazer aquele movimento pós-tequila. A estaticidade levaria 50% da Gisele. A Gisele sem movimento é um violino quebrado. Claro, um “baita” violino, mas quebrado.

Deus fez bem as coisas. Por isso não voamos. Com suas asas de cera, Ícaro tentou e se deu mal. Desafiar os deuses? Não! Fomos planejados para caminhar. Voar, só metaforicamente. Nem Jesus voou. Caminhou sobre as águas; caminhou até Jerusalém. Caminhando, percebeu a dor e a alegria dos outros. Assim deve ser. Pense no Caminho de Santiago sem caminhar.. onde estaria o lirismo de voar a Compostela? Sol, chuva, suor e calos. Uma fonte para lavar o rosto. No fim, uma pousada. Se voássemos, pousaríamos num galho. No caminho de Santiago haveria muitas árvores secas e desfolhadas de tanto as pessoas, exaustas, desastradamente, pousarem.

Para voar, precisaríamos de penas. Imagine a Gisele emplumada! Voando, os cabelos atrapalhariam. Feche os olhos e veja a mulher que ama emplumada e calva. E onde ficaria o carinho na pele? Como abraçaríamos? Como beijaríamos um corpo? Como cheiraríamos uma nuca de penas? Não passearíamos de mãos dadas. Não teria graça o vento levantar as saias. Voando seria difícil olhar-se de frente e as janelas seriam tristes. O único animal sem penas e alado que conheço é o morcego. Mas só sai à noite, quando toda a sedução da cor se recolhe. Você já viu um arco íris à meia-noite? Na opacidade noturna ninguém valorizaria o olhar esverdeado da Gisele. Nem com lua cheia. Penas? Só as da alma.

Caminhando, descobrimos nossa imagem corporal: cabelos-moita, nariz-espada, barriga-montanha. Caminhando, descobrimos dores que nos alertam sobre os desajustes do corpo. Além de qualquer argumento médico, caminhar é uma profissão de fé e autonomia.
Como não voamos, em sentido estrito, a ninguém mais foi dada a metáfora do vôo. Aqui Deus acerta outra vez. No corpo, temos braços que abraçam com mãos que acariciam. Na alma, somos um pássaro de esperanças e sonhos. Embora esse desejo de chão nos pés, dentro de nós há uma clarabóia sem tranca para o infinito. Não percebemos o lirismo do caminho, temos um corpo sem penas e, ainda, cada um pode dar a si mesmo asas tão imensas quanto puder imaginar.

Com licença! Vou andar, no caos das ruas, com minha fronte orgulhosa de ser humano. Com ou sem Gisele. Que me invejem todos os pássaros.